Barro à parede
Hoje também existo - Alguém quer saber?
Há pouco falava com um amigo sobre isto de aniversários.
Acho que é bastante revelador da natureza humana precisarmos de um dia para nos lembrarmos (ou para demonstrar que nos lembramos) que alguém existe.
E não digam que é porque adoramos celebrar todas as voltinhas que este nosso planeta teima em dar (chama-se translacção, para os mais incautos) à volta do sol, a não ser que sejam astrólogos, caso em que percebo as vossas explicações (mesmo que a sustentação científica das mesmas seja pouco demonstrável).
Isto é válido não apenas para os aniversários, mas para quase tudo o resto. Vejamos: temos uma data para nos lembrarmos de que o calendário acaba/recomeça (e fazemos uma festa); temos uma data para nos lembrarmos da nossa respectiva “metade” (se a tivermos - e fazemos uma “festa”); temos também duas datas móveis, uma para nos lembrarmos de que podemos mascarar-nos (festa) e outra para terminar o suposto jejum e recordarmos que há um par de milénios alguém terá sido crucificado (e fazemos o quê? uma festa, claro). Isto continua, até chegarmos ao Natal, que me parece ser a origem de todos os aniversários. E reparem também no que dizemos nessa altura, que é tempo de paz, de amor, e afins… Somos assim tão inseguros que precisamos de nos lembrar que devemos ser bonzinhos para os outros? Não se percebe.
Dito isto, resta-me passar o dia a sorrir e a agradecer os votos de felicidades de muitas pessoas que só lá para o Natal me voltam a dirigir a palavra.
Gira mundo, mas por favor, agora não.
A propósito da influência que certas mortes conseguem ter nos comuns mortais, eu tenho uma ideia própria, que me foi incutida por acaso, numa tarde de sexta-feira, talvez em 2007, ou na primavera de 2008. Ou seria 2006? Não me lembro.
Lembro-me que, nessa tarde, tinha acabado de sair do hospital onde o meu bisavô estava internado, e faltava-me ir à lavandaria buscar algo que era necessário levar para Aveiro. Estava com a minha avó, e estávamos atrasados - tínhamos hora combinada (creio que a ideia era sair de casa às 16h).
No entanto, ao sair do hospital, com a minha avó a resmungar pelo nosso atraso, fomos a uma capela ali perto, a que ela, por fé, por ritual, ou por hábito, vai diariamente. Nada de especial, em silêncio, como sempre.
À saída, chamam por mim (nem sequer tinha reparado que havia mais alguém na capela): uma antiga professora minha, por sinal uma das pessoas que mais admiro, pela sua força, determinação, sem sequer falar da inteligência e capacidade de ensinar.
Mas desta vez, estava diferente. No lugar daquela força e pensamento positivo de sempre, estava uma voz trémula, e um olhar frágil de quem não consegue aguentar mais as lágrimas. A mãe dela (uma senhora de idade avançada, claro) estava no hospital de onde eu tinha acabado de sair para ser operada (iam amputar-lhe uma perna, se não me engano), mas nenhum dos médicos sabia, sequer se a senhora iria acordar da anestesia.
Raras vezes recebi um abraço tão expressivo e sentido como aquele, e, no caminho para o carro ia diferente.
Como é possível estar eu e a minha avó tão preocupados com roupa na lavandaria, a resmungar por um simples atraso, enquanto ao nosso lado há alguém cuja única preocupação é saber se, pelo fim da tarde, ainda terá mãe?
Subitamente percebi: há poucas coisas que merecem a nossa preocupação. Mesmo muito poucas. E o resto, tudo o resto, é acessório. Somos incapazes de chegar até aí.
O mundo não pára, por mais que fosse essa a nossa vontade e por mais justo que assim fosse. Cabe-nos a nós parar por ele, e reflectir sobre quais são, de facto as nossas prioridades.
Garanto: irrito-me muito menos com o dia-a-dia do que antes. Não vale a pena.
Ah, a senhora acabou por morrer no dia seguinte.
19 de Agosto
São os pés que me arrastam pelo jardim, com uma súbita vontade própria - coisa inédita, que me recorde. Afastam-me do lago, sítio em que habitualmente me detenho a pensar no porquê da (acho eu) absurda falta de peixes. Ficariam engraçados a nadar em volta da estátua do nadador.
Levam-me para junto das árvores. Plátanos, se não me engano. Onde quer que haja “Natureza”, há sempre algum detalhe novo a ser reparado.
O caminho não acaba aqui, e agora sou eu que empurro os pés contrariados e serpenteio pelos bancos do jardim, até cruzar os portões.
Há quanto tempo não vinha aqui?
Provavelmente há menos de um mês, mas parecem décadas de existência. Entro, passo pelos azulejos antigos (“trazidos” do seu local original, claro), e subo a imponente escadaria de granito. O cheiro, esse, é o mesmo de sempre.
E num segundo, de novo a rotina.
Dias cinzentos de calções…
Acabo de perceber - mentira! acabo de reconhecer, vá - que a minha vida sentimental não passa de uma corrida em pista (circular, elíptica ou o que quer que seja, mas sem fim nem início definido). Assim, passo frequente e recorrentemente pelos mesmos pontos do percurso e, pior ainda, as pessoas por quem passo têm uma tendência por serem as mesmas ou estranhamente semelhantes.
Dir-se-ia que sou de luas, que funciono como as marés (que, por acaso, são também elas de luas… mais uma redundância para redundar a coisa), ou só que costumo ficar head over heels pelo mesmo. Sim, mais do mesmo.
Tanto é o dito mais do mesmo, que creio até haver alguma ordem oculta que faz com que as pessoas se sucedam: agora tu, depois tu, e de seguida tu. Tudo tu’s diferentes.
O caricato é que nunca (até agora) ninguém se atreveu a pisar o risco, correr a meu lado, atrás de mim, à minha frente. Quando passo, na minha corrida (chamem-lhe o que quiserem, o que é facto é que é raro eu correr) aparentemente rotineira, limitam-se a olhar, talvez acenar, talvez chamar o meu nome, ou talvez até mais, mas mesmo assim, não o suficiente. Nem quando eu faço uma pausa ali mesmo à frente dos lugares cativos.
Mas pelos vistos, na próxima volta há mais…
Mood: Luísa Sobral + Jamie Cullum (e não é pelo JazzFest, já que não vou)




